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José Nunes Martins
Mais do que um blog, um legado e um cantinho dedicado à preservação da memória coletiva de Malcata, das tradições e costumes e ofícios antigos. Um ponto de encontro para naturais, descendentes e apaixonados pela aldeia que moldou as nossas vidas.
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Estamos a um mês da
festa em Malcata. O mês que terminou há poucos dias serviu de estágio de
preparação para o mês de Agosto, que não fica atrás do mês dos santos populares.
O mês de Agosto é aquele mês que todos os domingos se celebram festas em honra
de santos e santas.
Eu também gosto de festejar, mas
confesso que não é no mesmo estilo e género como a maior parte da gente gosta.
Muitas pessoas, multidão toda aos empurrões, mesmo até nas filas do bar, das
carnes, dos carrosséis, das farturas ou das pipocas. Conviver sim, mas num
estilo mais tranquilo, mais calmo e não me sentir mais do que sou, exibindo
para os amigos as mãos a agarrar no copo cheio de cerveja e aos pulos andar em
volta da caixa de minis. Muitos dos festivaleiros é assim que gozam nas festas,
pois são todas iguais umas das outras e as diferenças só o local dos festejos.
Nestes últimos anos a programação das festas é mais do mesmo só que em dias e
lugares diferentes, na sua maioria, abençoados por pessoas santas.
E como já é costume, a festa na nossa
freguesia têm-se realizado no 2ºDomingo de Agosto. Normalmente são três dias de
festa organizada pela comissão de mordomos. As cerimónias religiosas estão sob
a responsabilidade do pároco da freguesia. Todos os outros eventos que se
fazem, há muitos anos que saíram da esfera da Fábrica da Igreja e são os mordomos
que se ocupam e assumem a organização de tudo.
Ultimamente na nossa terra o
desconhecimento e a incompreensão do território, dos nossos valores e também de
pessoas com alguma falta de sensibilidade, noto uma crescente falta de sentido
crítico quando os factos acontecem. Por desconhecimento, por receio de ser
incómodo e de ser incomodado, há silêncios que são gritos.
Na aldeia a terra é da comunidade,
nela vivem todos os que querem lá estar em permanência ou nos tempos
disponíveis para poder estar. Nesta terra muitas pessoas construíram a sua
habitação ou herdaram. Por ser assim, há que cuidar bem dela.
A aldeia que eu chamo minha não é uma
ilha, mesmo que a vejamos rodeada por muita água. Vivemos num território
agrícola, com muitos usos e costumes bem enraizados. E a festa no mês de Agosto
é um desses costumes. Mesmo com as mudanças, em que o profano tomou conta do
que mais rende, do bar e do ramo.
É com bastante preocupação que
escrevo, mas sinto que muitas pessoas estão a passar uma esponja pelas festas
mais antigas, da forma como os mordomos trabalhavam e organizavam. Numa
comissão de mordomos nem todos eles sabiam ler e escrever. As responsabilidades
de tesouraria ficavam a cargo dos que liam e escreviam. Havia sempre a
preocupação de encontrar alguém dos mordomos que se dedicasse às contas do deve
e do haver, do saldo e da dívida, pois quando o dinheiro não chegava, eram os
mordomos que assumiam o fecho das contas.
Não estou a pôr em causa a seriedade
das mordomias, pois tenho certo de que para mim todos tentam fazer o melhor e
todos querem que seja uma festa grande, forte e que todos se divirtam. É assim
que o povo espera que aconteça em todas as festas.
O ano passado, a festa foi boa e
divertida, quem lá esteve viu as pessoas a sorrir e a dançar, a beber e a
aplaudir. Correu sempre tudo muito bem, tão bem que não tinham tempo para tomar
apontamentos e transcrever para o livro as várias fontes de receitas e as
despesas. No fim de tudo, sabe-se hoje que, alegadamente, aconteceram coisas
estranhas que deixaram o povo enfadado.
É caso para perguntar: o que estão a
fazer com a festa de Malcata?
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| Cartazes de várias festas em Malcata |
Estamos cada dia mais perto das festas de Malcata. Algum dia quando alguém quiser escrever sobre as festas da nossa terra, quando chegar ao capítulo dedicado ao ano de 2023, para além de ficar a saber que as proibições do governo em relação à epidemia covid 19 tinham finalmente sido levantadas, fica também com a pulga atrás da orelha e vai tentar descobrir o estranho desaparecimento de parte das receitas da festa, notícia que correu depressa pela região, deixando os habitantes da freguesia incrédulos e tristes. Tudo tem uma primeira vez…e desta vez, os mordomos não estiveram à altura das e o serviço que voluntariamente prometeram fazer saiu manchado pelo caso das contas da festa. Pessoas, programa, luzes e arcos parece não ter faltado nos dias da festa. A alegria e a boa disposição, os bailes, a garraiada, o bar e as sandes foram servidas e tudo acompanhado de bom tempo.
Foi mesmo no fim que os mordomos sentiram o peso da responsabilidade de organizar bem as festas. E o assunto era mesmo sério, de solução difícil e com forte probabilidade de ficar na história das festas como o grupo de mordomos que não souberam estar à altura das expectativas do povo e das responsabilidades que todos neles depositaram. Parece que, durante a caminhada, alguns mordomos, descontentes com o caminho já percorrido, mostraram o seu desacordo e abandonaram de vez o caminho e os caminhantes. Diz o povo que só erra quem faz alguma coisa; também diz que quem anda acompanhado por um coxo, se não tiver cuidados redobrados e atentos, aprende a coxear como se fosse também coxo. Por isso, não é espanto que chegados ao fim da caminhada (festa), todos se queixaram das pedras e das pequenas falhas nas pernas e na vista. Passados que são estes meses e a nova mordomia andar atarefada na preparação da festa de 2024, ainda não se sabe a verdade e o que realmente aconteceu nas contas da festa de 2023. Também estranho a atitude do povo, nada foi feito para esclarecer o assunto. Nem sequer ouvi ou assisti a uma “defesa da honra” e “transparência” aos responsáveis disto tudo. Dá a ideia que nada de grave aconteceu e que a freguesia gosta das coisas assim, tanto se lhes dá como se lhes deu, querem lá saber o que sucedeu e as consequências que daí possam vir para o futuro. Em Malcata, tudo vai bem, fica tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Ninguém ousa perguntar no sentido de esclarecer e até ajudar os mordomos da festa deste ano?
A mim já nada me espanta. Um dia em Malcata alguém me disse na cara:
“tu já não és daqui, vai mas é para a tua terra!”
Um sorriso, meia volta e andar à minha vidinha cuidar dos cães que me respeitam e compreendem melhor… mas sou muito teimoso, continuei e continuo a tentar fazer algo que consiga mudar
alguma coisa. É o que estou agora a fazer! Quando a voz me doer, calo a boca.
Espero que esta minha carta vos chegue à caixa do vosso correio cerebral. Eu fico bem, graças a Deus. Tenho a necessidade de desabafar convosco e espero ajudar a interpretar os acontecimentos que se passaram durante o mês de Agosto na nossa aldeia. Então lá vai:
Muitas vezes quando uma festa corre mal, o povo procura
encontrar uma espécie de válvula de escape para acabar com a insatisfação do
povo. Noutras épocas e noutras terras o pau servia de arma de arremesso e
varriam os impuros da sua terra. Mas para isso acontecer havia que primeiro
encontrar o tal “bode”.
É um pouco assim que eu descrevo o que
se tem passado na aldeia onde nasci. Será que assim se consegue perceber as
contas da festa? É um mordomo culpado de tudo?
Sim e a mordoma e o povo. E porquê o povo? E eu expondo: porquê a mordoma?
Hoje estamos a acusar uma pessoa,
amanhã estaremos a acusar outras pessoas, porque tem de haver sempre quem deve
ser culpado de não ter chegado o dinheiro para pagar as despesas da festa.
Encontrado o “bode expiatório” há que o condenar e depressa, não pode continuar
sem castigo. E pensamos nós que se não for assim, mais aumenta a insatisfação e
mais vingança pedimos. E com tanto ruído, acabamos a compreender mal o que se
está a passar e ainda contribuímos para abrir mais a ferida, esquecendo-nos de
que cada um de nós também tem a sua quota-parte da culpa e do estado a que se
chegou. O mordomo que todos querem encontrar frente a frente acaba por ser o
único que praticou os crimes, os abusos, os acordos com os fornecedores de
bebidas, de espectáculos, de receber ofertas e deitá-las no mesmo saco preto e
opaco.
Todos nós nos transformamos em juízes e rimos à farta uns com os outros daquele
mordomo que já não tem uma casa na aldeia para se esconder e cheio de medo
desaparece para longe da vista porque quer continuar a viver.
É difícil provar a inocência e quanto
mais tempo demorar a explicar, mais culpa as pessoas lhe atribuem. Eu
interrogo-me porque deixaram o maquinista continuar a levar o comboio sozinho
até esbarrar na última estação? Durante a viagem ainda alguns se mostraram
insatisfeitos e na ausência de mudanças da linha, avisaram o maquinista que se
ia esbarrar na última estação, mas a fé e o saber fazer, convenceu o maquinista
que conseguia chegar ao destino e depois, direitinho para férias…Não foi assim
que aconteceu e ainda hoje se desconhecem os verdadeiros motivos de faltar
tanto dinheiro para pagar as contas da festa que bastava entrar o valor que
havia a receber e pagavam a festa, porque a partir daí, seria só lucro. Estas
foram as palavras que me lembro, de ter lido em Abril deste ano na página Mordomos 2023.
E agora como vai a freguesia lavar a
cara?
José Nunes Martins