Chegou o Sábado de Aleluia. Na aldeia de Malcata no Sábado
de Aleluia era costume celebrar-se uma missa por volta da meia-noite. Era uma
cerimónia bastante participada e animada. As pessoas levavam consigo campainhas
e chocalhos que ainda hoje os ouço a badalar ao mesmo tempo que os sinos do
campanário da igreja repinicavam e se anunciava a Ressurreição de Jesus Cristo,
enquanto os fieis cantavam “Aleluia, Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou”. E no fim da Missa de Aleluia toda a gente regressava a suas casas alegres e bem-dispostos. Era assim o Sábado de Aleluia na minha aldeia, quando eu ainda era garoto. Em 2007 a Marta comentava com estas palavras o tocar dos sinos: "O raio dos sinos que não nos deixaram dormir... Tocaram toda a noite, os sinos de Malcata!" E hoje como vai ser? CRISTO RESSUSCITOU! ALELUIA, ALELUIA,ALELUIA!
Quais são os sons de Malcata? O que se ouve na nossa aldeia quando paramos para ouvir o que se passa à nossa volta? Alguns ruídos, música e silêncio sentimos quer queiramos ou não.
Malcata tem património sonoro? O que distingue ou distinguiu a paisagem malcatenha das outras? Olhamos muitas vezes para a paisagem que nos rodeia, mas raramente a escutamos.
Hoje os sons de Malcata começam a ser outros. Antigamente, por exemplo, em Agosto, lançavam-se muitos foguetes, tocavam-se muitas vezes os sinos da igreja. Hoje em Agosto deixámos de ouvir o estoirar dos foguetes e os sinos da igreja já não tocam tantas vezes, até durante as procissões deixaram de se ouvir. É desejável saber ouvir a paisagem, os seus sons e os seus silêncios, as pessoas e os animais em Malcata.
Vivemos numa sociedade dominada pelo dinheiro, pelos bens materiais, por coisas descartáveis e que depois de usadas se deitam para o lixo. A sociedade de consumo e as evoluções tecnológicas dominam praticamente a nossa vida. Felizmente que vão surgindo testemunhos que nos mostram que nesta sociedade também há coisas que são imunes às influências do tempo, que podemos preservar o nosso direito à alegria, à sabedoria e à humanidade.
Os sinos do campanário da Igreja de Malcata também têm influenciado a vida das pessoas desde há muitos anos. As novas gerações estão mais voltadas para os computadores e as consolas de jogos. Na minha adolescência e quando estava na aldeia, sempre que ouvia as badaladas dos sinos da igreja, ficava assustado e corria a perguntar à minha mãe o que se passava. É que quando os sinos tocavam era porque alguma coisa aconteceu ou ia acontecer na aldeia. Cada toque tinha o seu significado. Pelo toque do sino as pessoas ficavam a saber se alguèm morreu, se era hora de ir à missa, se era preciso apagar algum incêndio, ou simplesmente, um aviso para rezar. E nos dias de festa, durante as procissões, os sinos não se calavam.
A preservação do toque dos sinos é uma acção que se devia levar a cabo. Talvez o exemplo vindo das nove cidades históricas de Minas Gerais, no Brasil, que quiseram preservar o toque dos sinos, influencie as gentes de cá a dar mais valor a coisas tão simples e imateriais, como são os sinos das igrejas.