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Desde que o lar de Malcata abriu as suas
portas já acolheu muitos idosos. Sabemos que a população da nossa aldeia está
envelhecida e são poucas as crianças nascidas nestes últimos anos. São tão
poucas que a escola primária já está encerrada e a creche continua também de
portas fechadas.
Afinal, quantos idosos vivem em
Malcata?
Quantos vivem nas suas casas?
Quantos deles optaram livremente para
irem viver para o lar de Malcata?
E quantos lá se encontram empurrados
pela família ?
Dos idosos que ainda permanecem nas
suas casas, quantos são apoiados pelo lar? E o apoio que o lar lhes oferece é o
suficiente, é o que eles realmente necessitam?
São muitas perguntas que me preocupam
nestes últimos tempos. Espaço no lar da aldeia é coisa que parece não faltar.
Se faltava espaço e as condições não eram as melhores, com a construção do novo
pólo que está prestes a ser aberto, as melhorias das condições para os nossos
idosos vão melhorar substancialmente.
Olhando para os velhinhos é fácil
entender que já têm muitos anos de vida, as rugas do rosto, as mãos calejadas,
o andar meio encurvado são sinais que nos indicam que estas pessoas já vivem há
muitos anos e agora sentem-se cansados.
Os idosos são pessoas com muitos anos de
vida, mas continuam pessoas adultas com capacidade de tomar decisões por eles
próprios, como o que querem ou não fazer hoje e amanhã. São ainda donos das
suas vidas, quer queiramos quer não, quer gostemos ou não das suas decisões.
Acontece muitas vezes e até acredito
que seja com boas intenções, a família intrometer-se na vida dos idosos. Os
familiares não se dão conta que, às vezes, estão a pisar o risco, estão a
violar a vontade própria do idoso e a sua autodeterminação, a sua vontade
própria de poder gerir a sua vida, as suas coisas, o seu património, em resumo,
a sua vida.
Tanto a família mais próxima como os
profissionais de saúde, desde os que trabalham nos hospitais aos que cuidam dos
idosos nos lares, por vezes esquecem-se que estas pessoas, apesar de idosas, têm
direitos. Todas estas pessoas não estarão a interferir demasiado na vida do
idoso e nas suas escolhas de vida?
Quantos idosos entram nos lares mesmo
contra a sua vontade? E quantas famílias os vão lá retirar à força, contra a
vontade deles?
Esta é uma realidade que se vive em
muitos lares, em muitas famílias e Malcata não deve ser diferente. A maior
parte de nós acreditamos que os idosos, a partir de certa idade, ficam sem
capacidade para tomar as suas decisões quanto à sua vida. Muitas vezes o idoso
pede ajuda porque o neto ou netos o querem meter no lar, mesmo contra a sua
vontade. Ou outras vezes, são os filhos do idoso que por causa da falta de
trabalho, sentem-se quase obrigados a retirar o seu pai ou a sua mãe do lar,
mesmo contra a sua vontade.
Isto é violência da autodeterminação,
é violência económica e se lhe juntarmos a violência emocional, temos à nossa
frente um grave problema para resolver. E a solução é difícil de encontrar
porque os idosos têm medo de muitas coisas: têm medo e não querem denunciar os
abusos da família, da direcção do lar e dos seus funcionários. Apesar dos
idosos se sentirem mal tratados e incompreendidos, vivem tristes e sofrem em
silêncio porque têm vergonha de denunciar o que se passa com eles ou do que
vêem ao seu redor. Ficam com medo de sofrerem represálias por parte daqueles
que deles cuidam. E muitas vezes, até têm medo de serem acusados de serem eles
os responsáveis pela situação por que estão a passar e acham que o melhor é
calar, não dizer nada e sem querer continuam a viver numa permanente tensão. Só
que estas atitudes e a aceitação destas situações, com o passar do tempo,
começam por ter perturbações no sono e deixam de dormir tranquilamente, estão
em constante nervosismo interior, quase com sentimento de raiva. Agindo desta
forma, estão criadas as condições para o aparecimento de variadas doenças.
O que fazer então?
A instituição e os seus responsáveis e
todos os seus colaboradores devem prestar sempre atenção a este tipo de
comportamento. Detectadas as situações, há medidas que devem ser postas em
prática.
Outra acção a ser levada a cabo é que
os idosos peçam ajuda e apoio. Aqueles que ainda estão de perfeita saúde e com
plenas capacidades de tomar decisões, no fundo, que apesar da idade avançada,
possuem uma vivência e uma independência íntegra e total, devem ajudar aquele
que já não está na mesma situação. Ajudar ou pedir ajuda à instituição ou a
algum cuidador em quem confie é um início. Se essa ajuda não existir, existem
outros apoios externos e que os idosos podem e devem saber que existem e que
estão prontos a ajudar a resolver o seu problema.
Deixo aqui dois importantes apoios:
LINHA SOS PESSOA IDOSA
Telef. 800 910 100
A linha “SOS Pessoa Idosa” é um apoio feito pela Fundação Bissaya Barreto, para
prevenir a violência contra pessoas idosas.
Abusos de dinheiro e atentados à autodeterminação, como o direito a escolher
onde viver, são atendidos.
SAÚDE 24 SÉNIOR
Telef.808 242 424
Serviço telefónico gratuito do Ministério da Saúde. Os enfermeiros, após
receber a chamada do idoso, contactam o idoso que quer ser acompanhado.