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| Desmancha do porco em Malcata (Tio Manel Augusto, avô João Pires e Carmo, minha companheira) |
A Associação Cultural e Desportiva de Malcata, na freguesia
de Malcata, organizou para amanhã, 25 de Janeiro de 2026, mais um almoço
convívio, (matança do porco).
Neste almoço é o porco o rei da ementa, a fazer lembrar as matanças. O cartaz limita-se
a publicitar o almoço e claro que está subentendido que os participantes
poderão saborear pratos associados à carne do porco. O programa é omisso e não
revela qualquer animação ou actividade para além do dito almoço convívio entre
os participantes.
Mais uma almoço que se destaca apenas pelo ajuntamento de algumas pessoas que a
organização aceitou durante o prazo de inscrição.
O foco desta actividade está
bem longe da tradicional matança e da preocupação na preservação cultural da
matança do porco. Ao valorizar o convívio de comer carne de porco, a convite da
associação, nada tem de especial, pois em qualquer altura do ano se pode comer
carne de porco. Sim, é verdade que valoriza o convívio entre as pessoas que
participam e a associação quer mostrar que está a defender e a preservar as
tradições da matança. Estará mesmo interessada em lutar pela preservação da
tradição? O convívio à mesa é sempre bom e deve ser sempre cultivado. Preservar,
valorizar, enaltecer, divulgar os saberes e sabores da matança à moda da nossa
aldeia, é muito mais trabalhoso e exigente, tanto na sua preparação como na
apresentação e realização no dia combinado. Assim como vai fazer a ACDM, é
pouco ambicioso e perde-se a oportunidade de transmitir às gerações do futuro
uma tradição que nos foi legada pelos nossos antepassados (avós, pais). Porque
uma matança do porco não é apenas comer carne de porco. E a associação, que tem
nos seus estatutos defender, preservar, valorizar a cultura e o desporto,
preocupa-se somente em juntar os sócios e não sócios para conviver e comer.
É claro que para comer e conviver, num
evento que junta pessoas de todas as idades e que até vêm de vários pontos do
país para comer e conviver umas horas, a sala tem enchente garantida.
A mim o que me deixa preocupado não é o
almoço e as pessoas que nele vão participar. O que me deixa um pouco triste e
cabisbaixo é verificar que as tradições que são a minha identidade com a aldeia
onde nasci e cujas tradições vivi na minha infância com os meus familiares,
vizinhos e todos os habitantes da aldeia, se esteja a desvalorizar, a aligeirar
e a esquecer
toda a sua autenticidade. É por isto que participar num mero almoço convívio,
que se pretende “colar”, “fazer crer”, que se está a preservar e a recriar a
matança do porco de antigamente, teria que haver momentos bem mais ambiciosos e
diferentes dos que estão no programa de amanhã. Mesmo com as imposições das
leis, mesmo que o “marrano” tenha que ser abatido no matadouro autorizado, todos
os passos seguintes da matança tradicional podem e devem ser feitos. E são
tantos os passos da matança que dão para os participantes observar e até viver
a experiência única de ajudar a “grande família de Malcata” a preservar a
tradição da matança. Pegar na palha para queimar a pelugem, com a ajuda da
carqueja ou de uma pedra, esfregar a pele do porco ao mesmo tempo que lhe
deitam água quente em cima, entregar um troço enrolado de palha a um dos
forasteiros, para ele levantar o rabo do animal e proceder à limpeza interna…ou
então introduzir um par de unhas do animal, no bolso do casaco do emproado e
distraído e soltar umas gargalhadas quando ele metesse as mãos ao bolso…ajudar
a levar aos ombros o porco para ser pesado com a roldana e segurar no chambaril
que o vai sustentar de cabeça para
baixo, por dois ou três dias…e a desmancha?
Ah, isso é coisa de homens. E as
mulheres ficam a ver? Calma Manel, sossega que para as mulheres não ficarem a
olhar os homens a trabalhar e a rir, para elas e as filhas, está uma tarefa
diferente, mais delicada e com responsabilidade muito grande. A tarefa das
mulheres é acompanhar as Marias da aldeia até ao ribeiro e ajudar a lavar as
tripas…enquanto outras ficam na cozinha da associação com a tarefa de olhar e
aprender a cozinhar nas panelas de ferro.
E isto que acabo de lembrar é apenas
parte da matança do porco, à moda dos nossos antepassados. A desmancha, por
exemplo, é também uma parte importante da matança. O pegar na “enchideira” e na
tripa numa mão e com a outra cheia de carnes, enfiar tripa abaixo até cima,
atar o baraço e sorrir pelo ter conseguido encher uma morcela, chouriça ou
mesmo um “colhoto”…
A matança dava muito trabalho. E
preservar a cultura popular também.
Vale a pena pensar nestas tradições, nos
convívios e nos valores que as tradições têm na identidade cultural e social da
nossa terra.
Com um programa cultural como o que
descrevi ou mesmo mais bem pensado ou até aligeirado, a freguesia de Malcata ganhava
outra importância e a união e entre ajuda contribuiriam para a transmissão
destes princípios de vida aos malcatenhos vindouros.
Para comer carne de porco, fico-me por aqui, que diga-se a verdade, os rojões de porco à moda do Minho, estavam no ponto!
Bom apetite para amanhã.

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