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| Rebanho na Malcata (Foto JFM) |
Será que em Malcata já se falou sobre a necessidade de haver
cabras nos montes?
Há poucos dias, nos finais do ano
passado, surgiu a notícia que as cabras estavam de regresso à serra da nossa
aldeia. E o anúncio veio acompanhado de algumas fotografias do novo rebanho.
Ora as cabras para os malcatenhos não é novidade, pois noutros tempos as cabras
eram um dos sustentos para as famílias. Por isso, pelo menos duas ou três
cabeças era o habitual ver nas lojas. A notícia é importante por causa do
número de animais que chegaram ao mesmo tempo, são muitas cabeças e realmente
pelas imagens o rebanho ultrapassa a centena de exemplares. As tão faladas
cabras sapadoras finalmente instalaram-se no novo curral/bardo que a Junta de
Freguesia mandou construir nos terrenos dos baldios da aldeia.
É provavelmente o único rebanho na
nossa freguesia. Já dá para perceber que vão dar muito trabalho aos pastores e
outras pessoas da nossa terra. A grandeza do rebanho, para além do número de cabras,
está plasmada no enorme potencial que ainda está por explorar. E gerir bem é
meio caminho para alcançar os objectivos pretendidos com o projecto em causa.
Estão feitos os primeiros passos para que se faça renascer a pastorícia. E isto faz-me recuar aos meus tempos de
escola primária, que era normal encontrar o pastor com o seu rebanho pelas ruas
da aldeia a caminho dos montes. Via cabras nas ruas, nos lameiros, nas bermas
dos caminhos a devorar silvas e ramalhos e se havia petisco que elas
apreciavam, era roubar de vez em quando umas folhas de couve ou nabo do chão do
vizinho.
Quando apareceram as empresas de
celulose a fazer plantações lá para os Alísios, a Machoca, os Forninhos,
Espigal, Chãos da Serra, parece que trouxeram maus ventos, foi uma debandada de
pessoas, animais, desapareceu a agricultura e as pastagens nas clareiras dos
pinhais, tudo ficou plantado com espécies novas e da mesma família das resinosas,
mas cresciam muito mais em direcção aos céus. Foram plantados milhares de pinheiros,
bem alinhados e com bons caminhos para as máquinas das limpezas. O que ninguém
vislumbrou foi o que se seguiu anos depois. Os pinhos cresceram, foram bem
mantidos e por lá se desenvolveram e desenvolvem. O pior foi o restante da
floresta, dos bichos e dos humanos. Nos pinhais não cresceu e não cresce quase
mais nada, o que havia foi sendo engolido, o solo está cheio de caruma, pinhas
e pequenos arbustos, os coelhos deram à sola e os gatos bravios e linces, os
lobos e as raposas não se ficaram a rir, abalaram também porque não tinham o
que comer. Os humanos foram empurrados para fora da serra porque era mais
importante preservar o habitat natural do lince ibérico. Qualquer tentativa de
cultivo ou intrusão na floresta natural da serra, era castigada com repreensões
e desagrados. O mato foi crescendo ao lado dos pinhos e das giestas. Os
carvoeiros foram embora e partiram para a França, lá eram mais bem pagos e
reconhecido o seu trabalho. Tudo foi caindo e morrendo, esquecido e o povo
voltou as costas à floresta.
Agora, quando olho
para as imagens deste rebanho, já me estou a ver a comer queijo com pão. E
estou a sonhar com aquele queijo fresco, de dois dias de cura, feito em casa,
com a coalhada dentro do acincho e o soro a escorrer pelo bico da francela até
cair no alguidar. Esse é que é o verdadeiro queijo fresco, feito de leite e
algum cardo, sem farinha, mas com algumas pedrinhas de sal grosso. Quem não tem
essas imagens na cabeça e a boca a salivar, nunca passou pela boa experiência
do que é comer queijo fresco. E é disto que fico à espera de um dia voltar a
experimentar. Eu ficarei satisfeito e quem estivar comigo, sentirá que vale a
pena consumir produto bom, genuíno e além da excelente qualidade e sabor,
alegra a comunidade, aconchega o estomago e faz aumentar a autoestima de todos.
As cabras, os que as tratam e cuidam,
são por isso importantes em todo esta fileira da pastorícia.
Acredito que o rebanho das cabras
serranas pode alterar a vida das pessoas que residem na nossa aldeia. É um
projecto que a nossa gente tem de acarinhar, valorizar e estar disposto a
colaborar no crescimento desta empreitada. Que ele seja uma das alavancas do
desenvolvimento sustentável e da criação de uma rede económica baseada na ideia
da economia circular.
Deus ajuda sempre, nós é que temos de
fazer a nossa parte.
Vamos lá apoiar as cabras e os
pastores.

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