09/01/2026

O MAIOR REBANHO DE CABRAS NA SERRA DA MALCATA

 

   


Rebanho na Malcata
 (Foto JFM)

  Será que em Malcata já se falou sobre a necessidade de haver cabras nos montes?
  Há poucos dias, nos finais do ano passado, surgiu a notícia que as cabras estavam de regresso à serra da nossa aldeia. E o anúncio veio acompanhado de algumas fotografias do novo rebanho. Ora as cabras para os malcatenhos não é novidade, pois noutros tempos as cabras eram um dos sustentos para as famílias. Por isso, pelo menos duas ou três cabeças era o habitual ver nas lojas. A notícia é importante por causa do número de animais que chegaram ao mesmo tempo, são muitas cabeças e realmente pelas imagens o rebanho ultrapassa a centena de exemplares. As tão faladas cabras sapadoras finalmente instalaram-se no novo curral/bardo que a Junta de Freguesia mandou construir nos terrenos dos baldios da aldeia.
  É provavelmente o único rebanho na nossa freguesia. Já dá para perceber que vão dar muito trabalho aos pastores e outras pessoas da nossa terra. A grandeza do rebanho, para além do número de cabras, está plasmada no enorme potencial que ainda está por explorar. E gerir bem é meio caminho para alcançar os objectivos pretendidos com o projecto em causa. Estão feitos os primeiros passos para que se faça renascer a pastorícia.  E isto faz-me recuar aos meus tempos de escola primária, que era normal encontrar o pastor com o seu rebanho pelas ruas da aldeia a caminho dos montes. Via cabras nas ruas, nos lameiros, nas bermas dos caminhos a devorar silvas e ramalhos e se havia petisco que elas apreciavam, era roubar de vez em quando umas folhas de couve ou nabo do chão do vizinho.
  Quando apareceram as empresas de celulose a fazer plantações lá para os Alísios, a Machoca, os Forninhos, Espigal, Chãos da Serra, parece que trouxeram maus ventos, foi uma debandada de pessoas, animais, desapareceu a agricultura e as pastagens nas clareiras dos pinhais, tudo ficou plantado com espécies novas e da mesma família das resinosas, mas cresciam muito mais em direcção aos céus. Foram plantados milhares de pinheiros, bem alinhados e com bons caminhos para as máquinas das limpezas. O que ninguém vislumbrou foi o que se seguiu anos depois. Os pinhos cresceram, foram bem mantidos e por lá se desenvolveram e desenvolvem. O pior foi o restante da floresta, dos bichos e dos humanos. Nos pinhais não cresceu e não cresce quase mais nada, o que havia foi sendo engolido, o solo está cheio de caruma, pinhas e pequenos arbustos, os coelhos deram à sola e os gatos bravios e linces, os lobos e as raposas não se ficaram a rir, abalaram também porque não tinham o que comer. Os humanos foram empurrados para fora da serra porque era mais importante preservar o habitat natural do lince ibérico. Qualquer tentativa de cultivo ou intrusão na floresta natural da serra, era castigada com repreensões e desagrados. O mato foi crescendo ao lado dos pinhos e das giestas. Os carvoeiros foram embora e partiram para a França, lá eram mais bem pagos e reconhecido o seu trabalho. Tudo foi caindo e morrendo, esquecido e o povo voltou as costas à floresta.

  Agora, quando olho para as imagens deste rebanho, já me estou a ver a comer queijo com pão. E estou a sonhar com aquele queijo fresco, de dois dias de cura, feito em casa, com a coalhada dentro do acincho e o soro a escorrer pelo bico da francela até cair no alguidar. Esse é que é o verdadeiro queijo fresco, feito de leite e algum cardo, sem farinha, mas com algumas pedrinhas de sal grosso. Quem não tem essas imagens na cabeça e a boca a salivar, nunca passou pela boa experiência do que é comer queijo fresco. E é disto que fico à espera de um dia voltar a experimentar. Eu ficarei satisfeito e quem estivar comigo, sentirá que vale a pena consumir produto bom, genuíno e além da excelente qualidade e sabor, alegra a comunidade, aconchega o estomago e faz aumentar a autoestima de todos.
  As cabras, os que as tratam e cuidam, são por isso importantes em todo esta fileira da pastorícia.
  Acredito que o rebanho das cabras serranas pode alterar a vida das pessoas que residem na nossa aldeia. É um projecto que a nossa gente tem de acarinhar, valorizar e estar disposto a colaborar no crescimento desta empreitada. Que ele seja uma das alavancas do desenvolvimento sustentável e da criação de uma rede económica baseada na ideia da economia circular.
  Deus ajuda sempre, nós é que temos de fazer a nossa parte.
  Vamos lá apoiar as cabras e os pastores.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comentário: