
Em tudo na vida,
de tempos a tempos, a pessoa precisa parar para ver, para ouvir, para conversar
e reflectir sobre aquilo que se está a passar na zona onde ela se encontra. O
mesmo devemos nós, os cidadãos que vivem ou têm alguma ligação importante a
Malcata fazer uma pausa e olhar com mais cuidado e tempo para o que se vai
passando na nossa aldeia. E esse olhar deve estender-se para lá do perímetro
urbano, olhar para as zonas à volta da aldeia, porque também por lá aparecem
situações que têm a ver com a alma da aldeia, com a história e a identidade das
pessoas e dos lugares.
Malcata é hoje uma aldeia com uma alma
e uma identidade construída ao longo de muitos anos, pelas pessoas que nela
nasceram, viveram e morreram. Também há que juntar a estes construtores todas
as pessoas que nasceram e partiram em busca da felicidade. Todos juntos
constituímos a alma da nossa pequena aldeia e ninguém deve ser ignorado nesta
história.
Estamos a viver o segundo mês deste ano
de 2020 e precisamos de fazer uma pausa. Como vemos e sentimos o bater do coração
da nossa aldeia? Há sinais de vitalidade ou de cansaço?
E como vamos de projectos? Que existem alguns projectos no papel e outros em
andamento, nós até sabemos que é verdade. Trata-se de investimentos em favor da
comunidade, como investimentos colectivos que são, vão consumir recursos
económicos da comunidade, da freguesia. Há que ter alguns cuidados e não
esquecer que todos os que residem na freguesia, que nela trabalham e também
toda a gente que daqui saiu, precisam de estar ao corrente do que se está a pensar
construir ou quase a começar. É importante as pessoas se identificarem com as
obras que se estão a construir, porque são também essas obras que ajudam a
construir a nossa freguesia, a servir de identificação da alma malcatenha. Não
vamos repetir alguns erros do passado, por exemplo, com o que aconteceu aos
moinhos, ao nicho da Senhora dos Caminhos, aos sinos da igreja Matriz ou ao
relógio da torre.
Há um património em Malcata que tem de
ser preservado, custe o que custar, pois se não o fizermos, estamos a ignorar
os lugares onde viveram as pessoas da nossa terra, estaremos a desrespeitar as
nossas memórias e a negar as nossas origens.
Veja-se o que se está a passar com o
património edificado no centro mais antigo da aldeia, aquele quarteirão
abrangendo a Rua de Baixo, o início da Rua do Cabeço, a Rua da Ladeirinha e a
Rua do Meio. Sendo aquela zona a mais antiga da aldeia, se nada for feito, em
poucos anos nada de identitário vai estar em pé. Por ignorância e falta de
acompanhamento técnico especializado, a alma identitária da aldeia vai sendo substituída
por almas de outros mundos.
E por muito pequena, baixa ou só com uma porta e um janelo, acreditem que é tão
importante como uma fonte, uma torre ou um moinho. É que essas casas com chão
em terra, telhas e lascas no telhado, apesar de pequenas e baixas, acolheram
durante séculos os nossos antepassados, os construtores e guardiões da alma de
Malcata.
Por isso é tão importante a construção
do Núcleo Identitário de Malcata e a obra tem mesmo de ser terminada. No seu
espólio contam-se as memórias de pessoas, de objectos, de saberes e de crenças,
de tradições e costumes.
Tudo isto, mesmo que muitos achem que
é velho e muito antigo, já não serve para nada a não ser para queimar no
Inverno, merece o devido respeito, porque ainda lá moram as memórias de muitos
malcatenhos.
José Martins
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Escaleira da Ladeirinha. antes das obras. |
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Escaleiras da Ladeirinha, depois das obras. |