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07 fevereiro, 2025

TER CARA DE PORCO OU DE CABRITO

      
   


O que acontece na nossa freguesia é tão pouco divulgado que parece nunca ter acontecido. Esta situação deve dar que pensar e reflectir a todos nós, os malcatenhos e quem se interessa pela aldeia.

   Nada disto me surpreende porque de um modo geral o povo sempre foi assim, as coisas são do tamanho que se querem que sejam. E o que as pessoas querem é festa, convívio, farra, música, mesmo debitada por dj’s e minis nas mãos, para empurrar a bifana de porco no espeto, da entremeada saída do grelhador. Sem estes condimentos, ninguém sai de casa, muito menos para se juntar ao monte dos que nunca perdem uma oportunidade assim.
   Na verdade, quem tem visão e quem faz contas ao retorno e ao ganho feito num só dia, está sempre presente e nunca se esquecem de colocar a banca em lugar visível, com o cofre e uns trocos que for preciso fazer. Com entremeadas, fêveras, bifanas e pinga, lá vão caindo umas moedas e notas nos bolsos de uns quantos e nos mesmos que assim mantêm bar cheio.
   Houvesse na freguesia, a visão de uma freguesia toda ela vocacionada para bem servir, surpreender e promover…e deixar de satisfazer o umbigo de alguns e seria um retorno muito maior, com presença de mais gente local, das terras vizinhas e mais distantes, onde a fartura se aliava à qualidade, à única e tão boa carne de cabra e cabrito, criados com o que a natureza oferece, esquecendo de vez os porcos no espeto, exigindo que pagassem o verdadeiro preço. Mas nada disso! Se assim fosse, lá se ia o negócio de quem agora ganha, por estar ali tão próximo e nem precisar de mostrar e provar que tem tanta qualidade como apregoa. Para o bem de alguns e mal de muitos o melhor é continuar na mesma e não ter visões que comprometam e que faça criar mais gente com vontade de comer do mesmo queijo. Por isso, não me surpreende que tudo continue a ser feito no mesmo sítio, com a mesma visão e dimensão e nunca esquecer o que está para chegar lá para os finais deste ano, mais surpresas com certeza irão acontecer. 

                                         
José Nunes Martins

06 fevereiro, 2025

MALCATA: A MATANÇA DO PORCO ERA UMA NECESSIDADE

    

A desmancha do porco na família do Ti Zé Martins
era feita com todo o cuidado.

   A matança tradicional do porco está hoje devidamente autorizada pelo despacho nº 14535-A/2013, publicado em 11 de Novembro de 2013 e desde 1 de Janeiro de 2014 que está em vigor. Neste despacho se pode ler que “É autorizada a matança para auto consumo de bovinos, ovinos e caprinos com idade inferior a 12 meses, de suínos, aves de capoeira e coelhos domésticos, desde que as carnes obtidas se destinem exclusivamente ao consumo doméstico do respectivo produtor bem como do seu agregado familiar e sejam respeitadas as seguintes condições (…)”.


   Concluímos daqui que se pode realizar uma matança do porco tal como nos tempos dos nossos avós, proporcionando aos que nela participam um momento único e de recriação histórica.
   E, como diz o regulamento, devem ser respeitadas algumas condições…que eu resumiria que a “matança do porco” obedece a um ritual que nos ajuda a preservar a história, as tradições populares e que vai para lá da organização de um convívio. É assim que se faz uma verdadeira matança.
   Na nossa freguesia o evento da matança tem estado a cargo da Associação Cultural e Desportiva de Malcata e anualmente organiza um convívio, convidando as pessoas da freguesia a saborear e a reviver as manhãs frias e de laburdos diários que antigamente todas as famílias faziam. A matança é uma herança cultural com contornos muito próprios que se identificam com a nossa aldeia e a sua história. A tradição de matar um porco é muito antiga e nós, os malcatenhos, devíamos estar dispostos a preservar a matança à moda de Malcata, com os devidos pedidos às autoridades, respeitando os preceitos legais.
   É todo um ritual que estamos a falar e que os nossos avós cumpriam nestas alturas dos meses frios e guardavam sempre tempo para nestas alturas estarem presentes nas matanças, quer na casa dos familiares, quer na casa dos vizinhos. As matanças eram uma importante ajuda para as famílias, mesmo aquelas de menos posses, um porco por ano tinha de ser criado para matar.
   A tradição pode até nem ser do acordo de todos e temos de estar preparados para ouvir opiniões contrárias à da maioria das pessoas. A tradição de matar o porco sempre dividiu os povos, as sociedades.
Uns defendem que se não deve causar sofrimento aos animais e que hoje há técnicas de fazer de forma diferente. Todos temos direito a ter uma opinião e o respeito mútuo é o toque certo para evitar mal-entendidos. Contudo, a tradicional matança na nossa aldeia, não devia deixar de se fazer nos moldes tradicionais, pois trata-se de respeitar o legado deixado pelos nossos antepassados, que durante séculos o guardaram e lhes permitiu que nós o conhecêssemos e vivêssemos, com necessidades diferentes das que eles viveram, mas tão importantes para nós podermos continuar a transmissão destes sabores e saberes tão característicos da nossa terra.
   Por isto tudo e porque a Associação Cultural e Desportiva de Malcata tem todo o apoio e conhecimento, por querer defender o bom e o melhor da nossa alimentação, da cultura e ainda homenagear quem nos precedeu, quem ainda hoje sabe como se faz uma matança, mesmo que as forças físicas já não lhes dê a força e a pontaria que precisam para consumar o golpe fatal.
                                 
José Nunes Martins

04 fevereiro, 2025

PRESERVAR POR NECESSIDADE OU MAIS UM CONVÍVIO?

    


   Preservar ou matar as tradições?
   O convívio é suficiente para que a tradição continue?
   Afinal, nas aldeias podem-se fazer coisas que na cidade não é lícito fazer. E há coisas que sempre foram feitas na nossa aldeia, houve tempos em que se faziam por necessidade, para garantir o sustento da família durante o ano.
   E mesmo que haja costumes para entreter as pessoas, outros existem cheias de sentido e significado. Ora é estas tradições com sentido que importa preservar e continuar a dar-lhe a importância que merecem.
   A matança do porco, mesmo que seja considerada ultrapassada, bizarra e cruel, não era feita porque se gostava de matar o porco que demorou um ano a alimentar. Noutros tempos, as gentes da aldeia precisavam de carne para a sua alimentação. O porco, o coelho, o frango, os vitelos e os cabritos, as cabras, as vacas, eram bem tratados e respeitados. Nenhum deles se matava por prazer, ninguém gostava que assim fosse.
   A matança do marrano é daquelas tradições que pessoalmente me ficou mais gravada e ainda hoje me lembro das matanças que se faziam todos os dias, durante uma ou duas semanas. O dia da matança parecia um dia de festa, mas na realidade as pessoas chegavam a sentir-se cansadas delas, é que ajudavam-se uns aos outros e às vezes tinham que comparecer a duas por dia.
   Em Malcata era trabalho para os homens e para as mulheres. As crianças eram mantidas um pouco afastadas curral e só regressavam depois do reco deixar de respirar. Eu lembro que a minha mãe não gostava que me aproximasse, pois, uma cena daquelas não era para as crianças assistirem.
   Hoje a tradição da matança está a morrer, deixou de ter um acto necessário e importante para assegurar a carne nas casas dos lavradores. A matança é feita para as pessoas se divertirem, comer carne até pode nem ser do porco, o que mais importa é convívio onde comida e bebida abunde.  E se for mais tarde, lá para a hora do almoço, já com tudo posto na mesa, pão, chouriça do ano anterior, queijo, azeitonas, basta pendurar o casaco nas costas da cadeira e sentar confortavelmente, mesmo que seja num banco corrido de madeira, é dia de festa até às tantas. No fim, todos acreditam que a matança deve continuar a ser preservada, é coisa que deixa as pessoas felizes, alegres e cheias de ouvir e falar das outras matanças, essas que só iam os convidados, primeiro trabalhavam e só depois comiam.
   Já agora, parabéns à Associação Cultural e Desportiva de Malcata, pelo evento que está a preparar para o próximo dia 16 de Fevereiro 2025.
                                                          
 José Nunes Martins


                                           

21 janeiro, 2023

O SACRIFÍCIO NECESSÁRIO

      Cada vez que sei de notícias de que na aldeia se vai fazer qualquer coisa que ajude a manter e a preservar as tradições, os costumes e as memórias da aldeia, fico contente. Infelizmente faz-se muito pouco nesse sentido.
      Desta vez na aldeia vão recordar uma das tradições mais marcantes para as famílias do mundo das aldeias, a matança do marrano (porco). E nada melhor que uma fatia de pão com uma fêvera  por cima e um copo de vinho que ajude a empurrar!

      

Trabalho fundamental para tudo aproveitar

   Tenho ainda memórias das matanças que se faziam na aldeia onde nasci. Lembro-me das horas que era preciso para fazer a matança, era tão demorada que levava um dia inteiro.
   Actualmente quase que desapareceu esta tradição familiar de criar um porco para matar. E quando alguém decide criar o porco, a matança é feita em moldes diferentes e os métodos já não são os mesmos. Continua a ser dia de festa e de muito trabalho e por aqui fica.
   A tradição e o costume de sacrificar um animal só o compreendemos se enquadrarmos essa tradição e esse costume no tempo e nas circunstâncias da época, conhecer o modo de vida familiar e comunitário de uma aldeia rural. Quem não nasceu na aldeia, quem cresceu fora de uma comunidade rural, com facilidade acha uma matança uma acto condenável, uma tradição que pouco tem de boas-práticas e sim uma atitude cruel das pessoas para com o animal. Quem vive no meio “civilizado” das cidades, estão habituados a comprar carne nos talhos, seja no da sua rua ou o do supermercado. Compram todo o tipo de carne e nem se interrogam dos procedimentos que foram necessários para os produtos chegarem aos pontos de venda.
   A sociedade sempre acompanhou a evolução do mundo. Adaptamo-nos a novos métodos, a novos hábitos alimentares, a consumir sem ter que assistir ou conhecer a origem do que comemos.  E esta adaptação acontece não apenas na alimentação, mas também assumimos modas novas de vestir-nos, de viajar, de criar e de sobreviver…
   Mas, a carne de porco que compramos no talho, é diferente da carne de porco que uma família obtém de um porco criado e alimentado durante um dado período e fazer a matança quando chega o momento? Quando vamos comprar carne, paramos o carro para reflectir ou pensar se o método de abate para matar o porco no matadouro é indolor, é prazeroso para o animal e para o trabalhador do matadouro? Provavelmente a morte é rápida, sem dor e sem faca. E quem faz o acto é herói ou assassino? Na aldeia, ao homem que metia o facalhão directo ao coração, chamavam-lhe “matador”! Não conheci matador que tenha sido preso ou condenado pela justiça! O povo ficava descansado e tranquilo quando o matador fazia um bom trabalho e o animal ficava-se à primeira.
   Os meus parabéns à iniciativa levada a cabo pela preservação das memórias dos nossos antepassados.
   Na nossa aldeia ninguém mata um porco por prazer. Antigamente a necessidade de ter carne para todo o ano, para uma família, o dia da matança era dia de festa e de convívio. E poder ter carne para todo o ano, desde carne branca, chouriças, chouriços, morcelas, farinheiras, bucho, presunto, pernil, tudo naquele animal era aproveitado. 
   Numa terra como é a nossa, a matança do porco é parte da nossa identidade e da nossa memória. Espero que esta tradição continue por muitos e muitos anos, a bem da nossa identidade cultural. Saibamos todos preservar bem o que é mais importante na nossa aldeia.
                                                       
                                                        José Nunes Martins

22 novembro, 2011

A LENDA DO PORCO




  « No tempo em que os animais falavam, certo dia o porco, vendo entrar na loja o cavalo e o burro com uma grande carga de lenha, de batatas, milho, a transpirar, cansados e desejosos  que lhes tirassem quanto antes, aquela carga, o porco, todo contente, sorridente e satisfeito batia palmas, grunhia de contentamento e, de uma maneira orgulhosa e vaidosa dizia-lhes:

- Vós sois uns autênticos desgraçados, sempre com a carga em cima de vós! Eu aqui como de tudo o que de melhor há e vós, infelizes, puxais pelo coirão, dia e noite sem descanso.
   O cavalo cansado e desanimado mas não convencido daquilo que o porco dizia, presunçosamente, respondeu-lhe:
 
- Olha porquinho duma figa, há-de chegar o dia em que tu, à noite, não vais comer nada, porque os teus patrões te vão negar seja o que for. Sabes porquê, rico porquinho? Não sabes? Mas vais saber, agora e vais ficar cheio de inveja de nós. Um dia, de manhazinha, o teu patrão vai abrir-te a cancela da cortelha. Sabes para quê? Tu vais pensar que é para ir passear, mas, enganas-te! Vão pegar-te pelas pernas, colocam-te em cima de um banco, mais ou menos do teu comprimento, espetam-te um facalhão na goela tu esperneias ali uns segundos, gritas por socorro com toda a força dos pulmões e começa a cair para o barrelhão o teu sangue em jacto...Olha, vaidoso e orgulhoso porquinho, termina nesse dia a tua boa vida. Nós, apesar de cansados, fatigados e, muitas vezes, desanimados, cá vamos andando, roncando, rosnando, algumas vezes, pinoteando, mas continuamos vivos!

  


Diz a lenda que o porco, depois deste diálogo, ficou muito triste e apreensivo, sempre à espera da noite em que lhe iriam negar a ceia. Lá se animava mais quando via entrar, à noite, o caldeiro de vianda e o despejavam na habitual pia de pedra. Então dizia para as suas longas orelhas:
   "Ainda não é amanhã, o meu último dia!"»
Autor deste texto: Manuel Martins Fernandes, no livro "Memórias de Infância...Raízes do Coração, pág.175a184.