No dia 25 de Janeiro, próximo domingo, a ACDM (Associação
Cultural e Desportiva de Malcata), vai realizar um Almoço Convívio centrado na
Matança do Porco. A poucos dias do evento, com toda a certeza, já alguns
associados estão a tratar do que há a tratar, e bem, porque preparar um almoço
para muitas pessoas é sempre trabalhoso, ou seja, precisa-se de tempo e muita
loiça para bem servir. E quando a associação convida, há que receber bem.
O convite é claro, convida-se para
participar um almoço de convívio, com comida e boa disposição. Não se exige ou
pede colaboração para ajudar a queimar o marrano com palha ou lavar a pele do
bicho com água aquecida. Essa tarefa já está atribuída a um grupo e eles e elas
tratam de todas as coisas, aos convidados basta reservar o lugar à mesa e
sentar para comer.
Ora assim sim, é um almoço convívio,
festivaleiro e a matança é mesmo o que menos interessa…o que não deixa de ser
engraçado e preocupante diria eu! É claro que para os participantes o que importa
é haver o que comer, mesmo que seja a pagar, é pelo convívio que ali vão. Bem,
mas por onde estou eu a caminhar a escrita? Valha-me Deus, os almoços das
matanças, mais chamados “jantares” davam cá uma trabalheira à minha mãe,
vou-vos contar, a pobre mulher acabava tão cansada, mas contente por tudo ter
corrido bem e já tinha sustento para o ano.
A nossa vida às vezes dá voltas e
reviravoltas e por muitas coisas que aconteçam, regressamos aos momentos onde
fomos felizes. E a época das matanças, ainda agora, chamam muita gente quando
se anunciam.
Mas quem liga à matança do porco? Quem
se dispõe a percorrer quilómetros de estrada para comer carne de porco? Quem no
seu juízo perfeito valoriza a matança tradicional, a que agora envergonha e em
vez de preservar o que defendem é esconder, suavizar o que antigamente era como
pão para a boca, era a regra da boa sustentabilidade familiar? Todas estas
perguntas não existiriam se as pessoas fossem convidadas a participar numa
matança tradicional, daquelas cenas da nossa aldeia que se matavam porcos todos
os dias, durante uma a duas semanas não se fazia outra coisa, matança hoje na
casa da Ti Irene, amanhã era o Ti Manel, depois a da Benvinda, a da Ti Rosa, do
Ti Quim Triste…ia-se ajudar para ser ajudado. E depois do trabalho, então sim,
era hora do jantar e do convívio.
Hoje organizam-se almoços de convívio, não
se diz que primeiro há trabalho para se fazer, carne a aprontar e que vai ser
para comer fresca, logo assada na brasa só com umas areias de sal grosso e em
cima do naco do pão, meter na boca, mastigar e beber para ajudar a ir… cheiro a
carne por todo o lado, pele queimada, unhas negras e rabo esfolado, mas o bicho
bem lavadinho e limpo pelo troço da couve, levado por quatro homens que antes
de o pendurarem no chambaril, deve ser pesado e bem pesado com a balança “romana”
essa barra de ferro com umas marcas e um peso, sem grandes instruções de uso,
mas certeira para revelar as arrobas do marrano.
E isto é só uma pequena parte do
trabalho que dava uma matança tradicional! Portanto, um almoço convívio como o
de 25 de Janeiro, não tem nada a ver com a tradição da matança do porco! As
tradições e os usos dão muito trabalho, mesmo quando se trata de demonstração,
recriação! No almoço convívio não se ensina quase nada sobre a matança, está
tudo morto e pronto à mesa, é só comer. Já me imagino um garoto a perguntar ao
avô o que era a matança dos tempos quando andava na escola e ele simplesmente
lhe responde que era a vida, era preciso matar o porco se queriam comer carne e
agora, se o neto quiser saber mais, que abra a janela do computador e espreite
com atenção, lá ensinam tudo, até dizem como faziam a matança!!!!
Pois é meus caros, a pressa da nossa
sociedade é inimiga da tradição. Por isso mesmo e porque não se preserva a
tradição da matança, não sou eu que me meto à estrada para participar num
almoço convívio, mais uma das actividades habituais organizadas por uma
associação cultural…mas na verdade a cultura não é da mesma casta que eu
conheci. Estamos a caminhar para o esquecimento da tradição genuína e que
representava a essência do nosso povo, identificava os costumes e os usos e esses
valores de convívio e entreajuda só se encontram e sentem cada vez que há
celebrações nesse sentido e com esse propósito de continuar a mostrar as nossas
raízes, as nossas identidades e o nosso amor aos nossos antepassados, à nossa
terra.
Eu tanto gostava de estar a escrever
sobre o trabalho árduo mas essencial, do programa das actividades culturais da
associação e o seu objectivo de promover e preservar a cultura dos malcatenhos,
tenho que me contentar pela divulgação habitual de mais um almoço convívio em
Malcata. Bom almoço para todos! Deixo aqui o cartaz:


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