A dedicação que merece respeito e segurança.
Na última assembleia de freguesia, realizada em 28 de Setembro, o senhor presidente da junta partilhou uma informação importante: um trabalhador assinou um contrato de trabalho a termo certo, sendo renovável.
Ora todos sabemos que esse trabalhador tem sido a pessoa que anda com as cabras, ou seja, tem exercido as funções de pastor. Também todos sabemos que, antes da chegada das cabras, esse mesmo trabalhador, já exercia as funções de Assistente Operacional-Cantoneiro, na área da nossa freguesia. Era ele que limpava as ruas e os espaços públicos, que fazia tudo o que lhe dissessem para fazer.
Com a leitura da minuta da acta da reunião de Setembro, fiquei a saber que o trabalhador que anda a pastorear, tratar e assegurar o bem estar das cabras do rebanho, teve que enfrentar uma forte e violenta praga de pulgas com origem nos animais do rebanho. E a situação foi mesmo grave, pois a empresa de desinfestação teve que visitar a residência do trabalhador que pernoita na sua casa, que se encontra no núcleo central da nossa freguesia. De repente e de um dia para outro, o homem que limpava ruas e praças, fontes, tanques e áreas de lazer, foi deslocado para a serra e todos os dias a fazer de pastor, sem que ninguém se tenha preocupado em garantir e aplicar todas as garantias e condições para esta mudança de tarefas, nomeadamente aqueles procedimentos de assegurar roupas, calçado, medicamentos de prevenção, vacinas em dia e apropriadas para aquele género de trabalho...bastou uma conversa e um salário mensal, um sorriso e desejos de boa sorte e que não lhe faltariam apoios.
No início de Outubro, a Junta de Freguesia abriu um procedimento para recrutar um Assistente Operacional-Cantoneiro, para integrar o mapa de pessoal da Freguesia no ano de 2026, com contrato de trabalho em funções públicas, sem termo. Este concurso ainda está a decorrer, pois é um processo lento e demora a chegar à decisão final do júri. No melhor dos cenários, a pessoa escolhida para ocupar o lugar de assistente operacional-cantoneiro ( e também pode vir a tratar de animais ), iniciará o seu contrato nos princípios de Janeiro de 2027, mesmo com o contrato assinado até 31 de Dezembro de 2026! Tudo isto acontece no mesmo espaço de tempo em que as malditas pulgas decidiram atacar o rebanho e o pastor. Ou seja, juntaram-se dois contratos e uma praga de pulgas e o tempo já está muito apertado para as coisas terem um fim feliz ainda este ano.
Será que quando vieram as cabras, o cantoneiro, que todos os dias de sol ou chuva, trabalhava com as mãos e a ajuda de uma pá e um carro-de-mão, a limpar as ruas e outros lugares públicos, recebeu ordens e sendo pessoa obediente, trabalhadora, leal e dedicado, simples e humilde, aceitou as mudanças de funções e de espaço?
Conhecendo a pessoa em causa, sabendo que guardar animais/cabras no monte é trabalho que já tinha feito, quando aceitou mudar estava longe de imaginar que fosse vítima de tão feroz ataque de pulgas. O importante era garantir trabalho e dinheiro no fim do mês! E tudo o resto ia-se vendo como corria...só que estes acontecimentos ocorrem sob a responsabilidade de uma autarquia, uma Junta de Freguesia. Eu até posso compreender a intenção da junta de freguesia em querer fazer o que já devia ter feito. Os dois lados sabem o que andam a fazer dia a dia com as cabras, com o subir e descer a serra, limpar instalações, acompanhar as mães e as crias, chamar e acompanhar o veterinário responsável pela exploração, comprar ração e feno para a alimentação, comprar brincos de várias cores, etc, etc,...mas sendo muitas coisas, não chega, não são todas mais importantes que garantir boa protecção, assistência médica, saúde vigiada (vacinas em dia) e constante preocupação com algum sintoma anormal dos animais e do pastor e uma constante preocupação com a implementação de todos os procedimentos exigidos para estes trabalhos ligados à pecuária e ao cumprimento de todas as obrigações legais.
O trabalhador, cantoneiro, pastor e tudo o que o contrato mencione, merece estabilidade no seu trabalho, mas acima de tudo, merece protecção contratual e dignidade. Quem conhece o homem, sabe que estamos na presença de um cidadão simples, humilde e leal a quem lhe dá a mão e meios de ganhar o pão. Trabalha sem reclamar e obedece. Por ser assim e por já ter andado a guardar animais, pertença da família, não deve ser nunca desculpa para as entidades públicas facilitarem os procedimentos que devem ser levados a cabo.
Desejo a total recuperação ao Luís e espero que o susto sirva de aviso definitivo para que o trabalhador, a saúde e protecção individual ganhe maior importância e seja uma acção prioritária, por cumprimento das regras e por respeito que todos os trabalhadores merecem ser tratados.
Malcata merece ter os seus baldios limpos e protegidos, as ruas e praças limpas, mas nunca à custa da saúde e do sacrifício silencioso de quem trabalha. Esperamos que os próximos tempos tragam boas notícias, fardamentos novos, ferramentas dignas e, acima de tudo, o reconhecimento merecido para este homem simples que nunca soube dizer não à sua terra. Que o futuro lhe traga a estabilidade e a segurança que tanto plantou ao longo de anos de serviço.
