| Cenas rurais |
Acredito que alguns malcatenhos poderão ter
memórias menos felizes da sua vida, de anos difíceis em que o jantar (almoço)
era uma sardinha e uma fatia de pão, em que se ia descalço para a escola, em
que se escrevia numa lousa de pedra de cor negra e que se apagava com a ajuda
de uma esponja e no final do dia ainda restava a lide doméstica ou a ajuda a
amanhar as terras e a guardar rebanhos, ou apenas uma junta de vacas que iam
para os lameiros. Como é possível não gostar de uma terra onde era permitido
deixar a chave na porta quando se saía de casa, onde existia o espírito de
entreajuda, onde sentíamos o cheio da terra lavrada ou molhada num dia de
verão, os pássaros a cantar durante grande parte do dia e das corujas durante a
noite, dos grilos ao entardecer e das andorinhas a serpentear os céus.
Ainda há quem viva assim e por isso,
muitos sonham com o regresso ao paraíso.