15/07/2017

EU QUERO IR À SERRA VER O LINCE DA MALCATA

                                       Inês, Sara e Sofia, à procura do lince da Malcata


   - Mãe, Carmo, eu quero ir ver um lince! Quando é que vamos à serra ver o lince?
   Esta foi a pergunta que a Sofia fazia à Olga, mãe da criança e que naquele mês de Agosto aceitou o nosso convite para deixar o Porto e ir até Malcata. A verdade é que eu sabendo que já não havia linces na Reserva Natural da Serra da Malcata, mas a insistência da Sofia em ir à serra e talvez encontrar um lince pelo caminho levou-nos a ir à procura daquilo que não íamos encontrar.
  Depois de umas horas a subir e descer, de olharmos para tudo o que mexia e andava, a Sofia um pouco desanimada disse:
- Zé vamos para casa! Sara e Inês o lince está escondido, ele deve ter medo de nós e não aparece. Vamos regressar e vimos amanhã mais cedo. Está bem?
- Tens razão Sofia. Vimos amanhã outra vez, quem sabe o lince apareça!
  Depressa chegámos a casa, porque a descer todos os santos ajudaram a andar mais depressa e o burro não tropeçou.
  Chegados a casa a Sofia disse-me ao ouvido:
- Ó Zé, prometes que amanhã vamos encontrar um?
- Sim Sofia, vamos lá amanhã outra vez!

02/07/2017

O QUE FAZER COM TANTA ÁGUA?


Albufeira da barragem
   
   Desde os anos sessenta, setenta e seguintes a aldeia de Malcata está bem diferente nalguns aspectos e igual noutros. Quando vamos hoje a Malcata, basta deixarmos a EN233 e entrar na M542 e as mudanças ocorridas na paisagem do nosso território estão à vista de todos. Ao nosso lado direito surpreende o Parque Eólico que se estende ao longo das Ferrerias e até quase à Machoca. A água da albufeira da barragem quase nos faz desviar por um daqueles caminhos em terra à nossa esquerda, pois o calor faz suar e a água hidrata e mata a sede.
   Longe vão os tempos em que conheci essas terras cheias de espigas douradas de centeio e trigo. Vinham ranchos de homens e mulheres e de foice na mão direita, dia após dia, entre cantigas e merendas, lá ceifavam até à última espiga.
   Poceirão, Ferrerias, Gorgulão, Chãos da Serra, Rasa, Ninho das Corças, Curral dos Porcos e outros lugares cheios de “pão e trigo” (centeio e trigo).
   Hoje todas estas terras deixaram de produzir cereal e encheram-se de pinhos bravos e carvalhos, outros são autênticos matagais totalmente improdutivos. 
   Em 1997 começaram as obras da construção da Barragem do Sabugal e em 2000 a água começou a sua subida até fazer cobrir os terrenos de muitas famílias da aldeia. Quem tinha terras na Fontacal, Ribeiro Grande, Várzea, deixaram de poder cultiva-los. Boa terra para produzir batata de excelente qualidade, lameiros com erva verde e fresca, moinhos movidos com a água do rio Côa, pontões e poldras para atravessar as margens de um lado para o outro, freixos, sabugueiros e amieiros, altos e frondosos, ao longo das duas margens do rio, sem dó nem piedade, foram literalmente engolidos pela subida das águas. 




                                                               Pego-Rio Côa

   Foi assim que se acabou aquela boa tradição de “ir para a ribeira tomar banho”, carregados de mantas e boas merendas. Nem o pó que se apanhava no regresso a casa, subindo a pé aquele caminho de pedra e muito pó, até chegar ao princípio da rua da Moita, fazia desistir de viver esta aventura de Verão em Malcata. Há uns tempos desci por este caminho, agora mais largo e menos poeirento e senti-me num pego invisível e irreconhecível. Muita água, mas não é a mesma água do pego, nem sequer os velhos amieiros deixaram e os barrancos também desapareceram.
   Malcata mudou e ainda hoje me pergunto se valeu o sacrifício. Hoje a maioria das pessoas que vive na aldeia são de idade avançada. Poucos são os que ainda vão para os campos trabalhar. A falta de saúde e a idade já não os ajuda a sair para os campos.
Os filhos e netos foram para longe ganhar a vida. Por isso há muitos terrenos ao abandono e não produzem riqueza.
   Como vamos mudar o estado destas coisas?
   A construção da barragem foi um alívio ou a oportunidade que Malcata precisa para se desenvolver?
   São perguntas que faço a mim mesmo e a cada um dos malcatenhos. Como vêem, vou a Malcata e dou comigo a pensar nestas coisas.
   A vós também vos acontece o mesmo?  

   

11/06/2017

PONTOS DE VISTA

 



Será que tenho que odiar aquelas pessoas ou instituições com as quais não estou de acordo? E as pessoas e instituições a mim?
   Parece que as minhas palavras escritas têm incomodado algumas pessoas. Ultimamente, quando ando por Malcata parece que a minha presença se torna suspeita e sinto que algumas pessoas já não olham para mim como olhavam há uns tempos atrás. Chegou-se ao ponto de se bloquear ou simplesmente não interagir nas redes sociais. E muito só porque penso ou estou em desacordo com algumas pessoas.
   Nos meus escritos e nos meus pensamentos apenas exprimo a minha ideia acerca de como gostaria que fosse a aldeia onde nasci e a ela me sinto ligado afectivamente. Felizmente para mim, quando apareceu um grupo de malcatenhos que concordavam comigo em muitas ideias e noutras não tanto, mas que havia espaço para todos, lançámo-nos ao trabalho. O povo é constituído por pessoas e cada cabeça sua sentença. Claro que é uma utopia conseguir que todo o povo acredite no mesmo e que concorde em tudo o que se diga, em tudo o que aconteça ou se planeia construir. Portanto, como sei que não acreditamos e nem concordamos todos no mesmo, lá vou trabalhando naquilo que acredito ser benéfico para a nossa aldeia e aos poucos entender a sensibilidade do povo, esforçando-me sempre por criar uma certa empatia com toda a gente.
   Acredito no valor dos malcatenhos, também não ignoro que tenho uma missão a desenvolver como malcatenho. É do conhecimento de alguns que há coisas com as quais não estamos de acordo e que às vezes, ao defender o meu ponto de vista e o dos que pensam como eu,  possa até magoar alguém com palavras mais azedas, todos nós desejamos  o melhor para o povo da aldeia e sabemos que existem muitos assuntos em que pensamos da mesma forma. Eu falo por mim e tenho estado disponível para encontrar a melhor solução ou soluções para resolver alguns dos problemas da nossa comunidade.
   Se reflectirem um pouco sobre as coisas em que discordo de algumas decisões na nossa aldeia, na verdade contam-se pelos dedos e não se trata de combater e contrariar só porque sim, só porque sou do contra. Não, longe disso! Quando discordo, é porque não estou convencido que é a melhor opção para a comunidade aquilo que outros defendem e nunca por ódio ou teimosia.