
Há certos acontecimentos nas nossas vidas
que, por serem demasiado marcantes, devem servir de exemplo e de reflexão para
todos e cada um de nós.
As Festas de verão em Malcata é um
desses casos. Trata-se de um acontecimento que pela sua importância e o impacto
que causa nas pessoas, ficam a fazer parte da história de Malcata.
Tenho a certeza que já ocorreram
factos durante as Festas de Malcata que marcaram quem os protagonizou e aqueles
que assistiram ao seu desenvolvimento. Já sabemos, que até à década de
sessenta, as festas tinham lugar na igreja e no adro. E no ano em que os
mordomos decidiram mudar para o Rossio, padre e alguns paroquianos, não ficaram
agradados e terá havido ali alguns desentendimentos de parte a parte.
Há uns anos atrás, lembro-me das
conversas dos mordomos acerca dos bailes e dos conjuntos de música e da
recomendação que o padre Lourenço lhes fazia: os bailaricos e tudo o que não
fosse de caracter religioso só podia começar no fim das pregações na igreja. Os
mordomos cumpriam essa ordem do padre e o povo também acatava, apesar de alguns
não gostarem lá muito, pois, muitas vezes, as cerimónias demoravam mais tempo
do que o previsto e o recinto das festas estava sem ninguém, o bar não fazia
dinheiro, etc.etc.
Para que não fique dúvida nenhuma,
desejo aqui deixar bem claro que este meu apontamento não visa, de forma
nenhuma, atingir, maliciosa ou injustamente, o pároco actual, o Pe.Eduardo. Não
é meu propósito denegrir quem quer que seja, mesmo que supostamente pudessem
haver razões para tanto. O meu objectivo é tão somente levar as pessoas de
Malcata, incluindo os mordomos, a uma reflexão sobre as Festas de Malcata.
A verdade é que o senhor padre este
ano tomou algumas atitudes menos correctas. Foi um erro, mas que lhe pode
custar caro e que ele começou já a pagar ao ser desprezado por alguns mordomos
e outras pessoas do povo. Dirão que essas pessoas que confrontaram o padre
Eduardo não têm esse direito e deviam seguir o que ele lhes dizia para fazer,
que a festa é da igreja, que quem manda na igreja é o padre, etc.,etc. Sejamos
razoáveis e coloquemo-nos cada qual no seu lugar. Conta-se que na véspera da
festa, portanto no sábado, o padre apareceu na igreja e falou com os mordomos
dando indicações acerca da organização da procissão com os santos e na forma
ordenada que os participantes deveriam ter em conta, ou seja, participarem na
procissão caminhando em duas filas, uma de cada lado da rua, em silêncio e não
junto aos andores. Outra indicação que receberam os mordomos nesse mesmo
momento terá sido um pedido também feito pelo senhor padre que consistia em
colocar os santos no adro da igreja enquanto decorreria a Missa Solene, obtendo
mais espaço no interior do templo para permitir que mais pessoas entrassem para
participar nas cerimónias. Ora este movimentar dos andores nunca se faz em
Malcata e foi difícil ouvir e acatar essa ideia do padre. Se o ambiente estava
crispado, piorou quando os mordomos ouviram as palavras do padre dando a
entender que os santos que estavam nos andores não eram mais do que umas
estátuas de madeira. Caiu o Carmo e a Trindade, entornou-se o caldo por
completo. E parece que para ajudar à “missa” alguns elementos da Fábrica da
Igreja apoiavam a atitude do padre Eduardo. Lá se entenderam, ou pelo que sei,
os santos participaram, como sempre participaram. Ninguém os retirou da igreja
para o adro, a igreja e o adro encheram-se de pessoas.
Estamos no século XXI, dizem que
vivemos num regime democrático e livre. Voltando, por instantes, aos anos 50 e
60, época da ditadura. Na nossa aldeia e nas outras, para além da ditadura, a
Igreja tinha um peso enorme e isso sentia-se nas pessoas. Muitas vezes, os
padres ditavam ordens, em forma de avisos, muitas vezes no final das missas
dominicais, que as pessoas eram forçadas a acatar. E caso não o fizessem, eram
apontadas como “rebeldes” e poderiam vir a sofrer severas penalizações impostas
pelo regime político que detinha o poder e aquelas ameaças de irem para o
inferno, caso desobedecessem. Viviam num ambiente do “mando, posso e quero”.
Os mais velhos recordam que, salvo
raras excepções, a Igreja Católica portuguesa, no tempo do Cardeal Cerejeira,
amigo de Salazar, andava de mãos dadas com o seu Governo. Por isso, nada de
surpreendente, o facto de alguns padres terem praticado excessos, cometeram
certos abusos. E em Malcata, onde a maioria trabalhava na agricultura e vivia
dela. Sabe Deus como, porque as dificuldades eram muitas e o trabalho era mais
manual, mais à custa da força humana.
Mas a verdade é que, apesar de pobres
e por vezes passando menos bem, o povo de Malcata sempre gostou de festejos.
Malcata era um povo pobre, mas alegre. Podiam as pessoas sentir-se cansadas do
trabalho nos campos e mal comidas, mas as festas tinham que ser feitas. À festa
de verão, novos, velhos e as crianças, não podiam faltar.
Nesses tempos, a festa da aldeia era
algo de muito importante. Hoje é difícil explicar esse sentimento aos mais
novos. Apesar deles ainda virem a Malcata por altura da festa, antigamente era
o maior encontro do povo. Era quase uma “obrigação” dos malcatanhos que vivem
fora de Malcata virem à terra para marcar presença na festa. Tal como no passado,
também hoje todos se divertem e confraternizam com os amigos e família. Ainda
continua a ser o evento que mais gente traz à aldeia. No passado, vinha mais
gente das aldeias mais próximas como aquelas que vinham do Meimão, das Alagoas
ou da Aldeia de Santo António. Todos procuravam a diversão e conviviam uns com
os outros. Reparem que nessa época as diversões eram poucas, a televisão ainda
era a preto e branco e Malcata só teve luz eléctrica a partir de 1965.
Voltando às festas de Malcata, depois
da mudança do adro da igreja para o Rossio, dado o êxito obtido, os mordomos
não arrepiaram caminho e o adro ficou completamente apagado das festas. Apesar da oposição de alguns e dos avisos do
Pe.Lourenço para que houvesse respeito pelas cerimónias religiosas e a
constante chamada de atenção aos mordomos para que a festa no Rossio só tivesse
início depois das pregações, os festejos ainda hoje lá continuam.
Escusado será dizer que a festa deste
ano correu bem. O dia amanheceu, houve a tradicional procissão com os santos à
volta do povo, celebrou-se a Missa Solene e a tarde foi animada pelo Ramo,
Banda de Música e à noite baile animado.