quinta-feira, abril 17, 2025

AS MATRACAS QUE NOS ASSUSTAM

 


   Malcata já foi uma aldeia cuja população era de pessoas remediadas, viviam daquilo que as suas terras produziam. A maioria da população passava os dias a trabalhar nos campos a que chamavam “chão” e se havia grandes lavradores, com grandes áreas de terra arável, a maioria cultivava pequenas leiras e até as juntas de vacas tinham dificuldade em fazer uma boa sementeira, dadas as pequenas dimensões do “chão”. As famílias mais abastadas precisavam de mão de obra e havia algumas pessoas que trabalhavam aos dias, ou à jorna, por isso lhes chamavam jornaleiros. Estas pessoas trabalhavam para outros porque não tinham terras como possuíam os lavradores.
   Além destas duas actividades, lavradores e jornaleiros, havia muitos pastores de cabras, carvoeiros, carpinteiros, sapateiros, moleiros, tecedeiras, costureiras…
   Hoje as coisas são bem diferentes e a festa que se fazia na Páscoa, por exemplo, vestir roupa nova, é um costume já esquecido. Umas semanas bem antes da Páscoa, as costureiras começavam a receber os pedidos para um vestido novo, uma saia ou um par de calças. O processo começava na compra do tecido nos comércios, na ida à costureira, nas duas provas, como se pode ver, era um processo demorado, mas o importante de tudo, era estar pronto a tempo de o vestir no dia da festa.
   Era assim o dia a dia dos habitantes da aldeia. E sempre que morre alguém, toda a aldeia comenta com tristeza a perda, mostram-se tristes pelo que aconteceu. Então durante a Semana Santa, quando amanheciam os dias a tristeza tomava conta dos rostos e das nossas próprias acções.
      As tradições de Páscoa em Malcata são carregadas de simbologias religiosas. De Quinta-Feira até Domingo, nos meus tempos de meninice e que eu vivia na aldeia noite e dia, a Procissão do Senhor dos Passos e a Procissão do Enterro do Senhor, que acontecia entre a igreja paroquial e percorria as principais ruas da freguesia, destaco aquele momento evocativo do encontro de Jesus “Senhor dos Passos” com a sua Mãe “Nossa Senhora das Dores”, que o pregador convidado, fazia de viva-voz durante uns 20 minutos, pelo menos.
   Guardo ainda na minha memória em que também participava nas cerimónias da Semana-Santa na aldeia. As procissões, as canções e as roupas negras escuras, ainda mais tristeza se sentia no ar, no olhar e falar das pessoas.
   Havia um som que ouvia pelas ruas da aldeia que só acontecia pela altura da Páscoa. O barulho era tão arrepiante que se ouvia ao longe, rompia o silêncio e a calma até dos gatos.
Lembram-se do tocar das matracas? E do sacristão que andava pelas ruas a chamar as pessoas para as cerimónias religiosas na igreja? Como é que as matracas conseguiam fazer tanto
barulho e muito estranho de ouvir? Por muito que o sacristão ensinasse como se deviam tocar, poucos lhe ganhavam o jeito para abanar um bocado de tábua e fazer bater o ferro na madeira.
Como não se tocavam os sinos, era ao som das matracas que o sacristão fazia aquele sacrifício de percorrer as ruas e no fim da terceira volta, o padre dava início às cerimónias na igreja.
   A Páscoa é celebrada em tempo de Primavera, com dias mais compridos, mais quentes, os campos começam a renascer do frio do Inverno, veem as flores, as papoilas e as árvores enchem-se de flores. Também a própria natureza costuma vestir roupa nova.
   Um olhar atento ao que se está a passar na natureza e a participação consciente e de desprendimento, podem ser sinais externos da nossa ressurreição. Basta olhar e captar o que Jesus nos quer dizer com a morte, o sofrimento, a paixão pela vida, pelas flores, pelos sinos a tocar em rebate festivo. Porque a vida na Terra se constrói com coisas simples…alegres e belas também. 
                                                                        José Nunes Martins

terça-feira, abril 15, 2025

MALCATA À ESPERA DA RESSURREIÇÃO

 


   Tem sido sempre assim. Já várias vezes abordei o assunto. Estamos mesmo
escondidos num buraco entre o castelo do Sabugal e a Machoca. Esta escuridão cerrada a que os malcatenhos estão obrigados por parte do poder autárquico e, neste caso, por parte da Junta de Freguesia, é disso prova. Questiono-me diversas vezes se eles, no fundo, querem mesmo que os malcatenhos, que não vivem na freguesia, permaneçam cada vez mais esquecidos das suas origens. Isto não pode ser e não deve acontecer. Será que sou o único malcatenho a sentir falta de notícias sobre a freguesia e as pessoas malcatenhas? Ou seja, mesmo não o desejando, somos obrigados a viver alheados e afastados da aldeia?
   É que a freguesia vive isolada do mundo e ninguém se preocupa com isso! O isolamento a que está votada deve ser preocupação de todos, dos que aí vivem e daqueles que vivem distantes.
   É incompreensível e até impensável que a nossa freguesia se esteja a deixar morrer desta forma e não ver nem sentir qualquer sinal de revolta, qualquer manifestação de
insatisfação. Quem visita as redes sociais, as páginas oficiais da nossa Freguesia, rapidamente verificará que na nossa terra nada acontece, está tudo na santa paz e harmonia, são um povo satisfeito e por isso, não mudam de vida!
   Isto é preocupante e se o não fosse, eu até brincava com a situação. O que se está a passar é de gente que não quer o melhor para as pessoas da nossa terra. Olham demasiado para os seus umbigos e esquecem que todos temos umbigo.
   O mundo não perdoará o tempo às pessoas. Os dias passam e tal como acontece com as borboletas, acaba mesmo tudo. Será que é isso que querem? Acabar com tudo? Há muito que o Amigo da Verdade, jornal semanal que muitos assinaram, deixou de ser lido porque acabaram com ele. Era o grande elo e informação que o concelho do Sabugal tinha e lia todas as semanas. Tem sido nos arquivos deste jornal que vou beber um pouco da história da nossa aldeia. Era neste jornal que os emigrantes, os soldados, os estudantes e os que viviam na aldeia, que ficavam a par da vida e das pessoas que viviam em seu redor. Nesses anos ainda nem se falava da internet e das suas virtudes. Hoje, a sociedade já não dispensa a internet, tudo se transmite, o bem e o mal nunca andaram tanto nas bocas do mundo. A internet é na verdade uma das melhores e mais rápidas ferramentas para o homem comunicar,
expressar aos outros os seus sentimentos, os seus problemas, os seus êxitos…
   Estamos em época Pascal e Páscoa é sinónimo de reflexão, de renovação, de sofrimento e de muito amor, de um desprendimento daquilo a que vivemos agarrados mesmo que esteja a fazer mal aos outros. As mudanças trazem renovações e ressuscitar é daquelas mudanças que todos queremos…novos sonhos, desejos, projectos, objectivos, caminhos, servir mais do que ser servido…e não precisamos de ser pregados na cruz para tudo mudar e ser diferente. É difícil abandonar hábitos, vícios, desejos, planos, para que os outros sejam mais felizes, mas muitas das vezes e algumas dessas coisas estão mais ao nosso alcance do que nós imaginamos…

quarta-feira, abril 09, 2025

MALCATA: PARA MEMÓRIA DE TODOS

   

Rui Chamusco e Zé Lucas em modo
de concerto à sua maneira.



   Para uma pessoa compreender o presente ela precisa também de conhecer o passado. Por isso, recordar ou observar o que foram durante muitos anos alguns lugares de Malcata, os costumes, as tradições, todas elas e não apenas aquelas que se gostaram ou se defendem agora:

Malcata-dados
- Corela- ACDM- Ribeira- Malhas do pão - Maçarocas de milho – Janeiras…
Festas e procissões-Acompanhamentos – Tabernas – Comércios...
Alcabuz – Raiola – Pião – Boneco de neve…Candeia…Vacas – Cabras…
  
Malcata-dados


   Mesmo que não pareça, sou da Beira, eu nasci na aldeia de Malcata. Os meus pais nasceram também em Malcata, trabalharam na agricultura e sempre estiveram ligados à aldeia, à vida do campo, tempos bem diferentes dos que hoje vivemos. Nos anos da minha infância a aldeia estava cheia de crianças, as pessoas iam e vinham do trabalho, tratavam da vida e ainda tinham tempo para se divertirem. Recordo-me que a vida na aldeia corria com alegria, com o barulho dos carros de vacas, com as galinhas em plena calçada ou mesmo nas ruas de terra batida, que naquele tempo, havia muitas ruas que no Inverno enlameavam os sapatos e no Verão enchiam-nos de poeira.  Eu nasci em Malcata mas, depois, com 12 anos mandaram-me a estudar para bem longe, mais longe que a Guarda e Coimbra, mesmo ao lado do Porto, para Vila Nova de Gaia.
   A aldeia, passados estes anos, está mais triste, já não se ouvem os carros de vacas, nem nas ruas se veem galinhas, cabras ou burros. Estes ruídos davam ainda mais prazer escutá-los misturados com as correrias dos garotos. São as memórias que ainda guardo na minha memória de infância.



Banda da música em dia de festa

  Se não tenho retratos desses tempos é porque não era de família abastada. Infelizmente, as máquinas fotográficas só estavam ao alcance de algumas pessoas. Na nossa aldeia havia algumas, eram pessoas com mais dinheiro, gente trabalhadora, gente boa. E como é que eu sei que tinham máquina fotográfica? Porque encontro muitas fotografias de há muitos anos, são registos dessas pessoas, das suas famílias, das suas vidas e dos lugares por onde viviam e vivem. São verdadeiros tesouros documentais e que muitos contribuem para matar saudades, para hoje as pessoas conhecerem a aldeia onde nasceram, ou os seus pais, avós…eu aqui neste espaço só desejo que quem o lê, compreenda a história da aldeia e das pessoas a ela ligadas e que estejam onde estiverem, têm coração malcatenho.



    



Porquê construir muros 
quando uma corda bastava?





Malcata presente e com ofertas
            
          PS: Quem tiver em sua posse imagens antigas, podem enviar para aqui e terei todo o gosto
                 em divulgar. Enviem via e-mail: josnumar@gmail.com ; por Messenger ou Face Book 
                 em mensagem privada e claro, com as vossas indicações a ditar o tratamento das imagens,
                  por exemplo, indicar os rostos a desfocar ou cortar na foto. Obrigado.

                                                             José Nunes Martins