23 março 2015

O CORPO VAI MAS FICAM OS PENSAMENTOS E ACÇÕES


   O Ti Eugénio, de vez em quando gostava de visitar a família que vive nesta casa em Malcata. Cheguei a vê-lo a ele e à sua família em sã e alegre conversa e além da saudação mútua pouco conversei com este senhor pois os meus pais vivem mesmo em frente. Mas nunca deixava de ler as suas crónicas publicadas no jornal Cinco Quinas, a quem lhe deu o título "Baú de Memórias". Soube que faleceu e foi uma notícia que me deixou triste. Acabei de ler no Cinco Quinas um texto escrito por um dos seus três filhos, o professor João Duarte. O jornal Cinco Quinas que me desculpe, mas vou partilhar essas palavras que expressam bem quem foi Eugénio Duarte e desta forma homenagear este homem simples, alegre, trabalhador, afável e sempre pensou por ele e agiu de acordo com as suas crenças e liberdade de pensamento. O artigo diz:


"Sei que pode parecer pretensiosismo ser um filho a escrever um artigo sobre um pai, recentemente falecido, mas não pretendo que estas palavras sejam interpretadas assim.
Eugénio do Santos Duarte, nascido a 25 de Abril de 1927, no Soito, era filho de José Francisco Duarte e de Elvira dos Santos. Faleceu no passado dia 16 de Março de 2015, aos 87 anos de idade, no Soito, após internamento no Hospital da Guarda.
Do seu pai herdou as características de homem íntegro, com convicções e amigo do seu amigo. Quem o conheceu, sabe que não estou a mentir.
Cedo aprendeu a arte de carpinteiro com o seu pai. Trabalhou, como carpinteiro, em diversas obras particulares e comunitárias. Muitas igrejas do concelho foram, no que diz respeito à carpintaria, reconstruídas por ele. Também trabalhou no antigo Cinema D. Dinis, no Sabugal. Para além disso, fazia móveis para casas particulares. Trabalhou para pessoas ricas e para pessoas pobres, sendo por todos estimado. Embora não fosse homem de ir à igreja, muitos padres das freguesias onde trabalhou eram seus amigos.
Ainda criança foi viver para Quadrazais, onde terminou a 4.ª classe do Ensino Primário. Quadrazais marcou-o muito, a tal ponto que sabia as alcunhas de toda a gente que vivia nessa freguesia, naquele tempo. Mais tarde viveu em Aldeia Velha, onde participou no “Passeio dos Rapazes”, um facto que o marcou e de que, constantemente, falava. Referia ele que, tal como se dizia naqueles tempos em Aldeia Velha, “andou a passear”.
Casou com Alice Dias Aristides e teve três filhos: o João Manuel, o Luís Carlos e a Dulce Helena.
Tal como muitos seus contemporâneos tentou a sua sorte como emigrante em França, para onde foi com “carta de chamada” e passaporte legal, trabalhar como carpinteiro. Apenas foi emigrante durante nove meses, tendo regressado a Portugal.
Dedicou-se à construção civil e trabalhou nas terras da Raia, sobretudo na Lageosa, Aldeia do Bispo e Aldeia Velha, onde granjeou muitos amigos.
Esteve na génese das Festas de S. Cristóvão, no Soito, tendo sido por vários anos mordomo das mesmas, a última das quais em 1988.
Amante de música, sobretudo das Bandas Filarmónicas (mas não só), era a sua opinião que era atentamente escutada quando acontecia o concerto no adro da igreja. A opinião do Ti Eugénio era definitiva sobre a “performance” da Filarmónica.
Teve a suprema honra, de no dia do seu aniversário, em 1974, ter visto o país liberto da Ditadura, que ele tinha combatido, característica que herdou do seu pai.
Tornou-se membro do PCP, facto que nunca renegou até ao fim da sua vida, mas era amigo de pessoas de todas as ideologias políticas ou credos religiosos.
Participou nos peditórios para a compra da “carreta funerária” que existiu no Soito e contava, sempre, um facto muito cómico que aconteceu num desses peditórios. Ao dirigir-se a uma determinada pessoa e perguntando-lhe se queria ajudar nessa compra a pessoa responde: “Eu não dou nada! Eu vou a pé!”
Esteve na fundação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Soito, sendo o seu sócio número 5. Foi membro de várias direcções dos Bombeiros do Soito, nomeadamente da sua Assembleia Geral. Participou nos peditórios iniciais realizados no Soito para a compra da primeira ambulância e foi ele o Ti Zé Ferreiro que foram ao Porto buscar a primeira ambulância para os Bombeiros.
Foi ele que construiu, em madeira, a primeira maqueta do futuro Lar da 3.ª Idade da Santa Casa da Misericórdia do Soito, que esteve exposta no adro da igreja.
Quando se reformou dedicou-se a pequenos trabalhos de carpintaria, tendo executado inúmeros artefactos, nomeadamente bancos, “irgadilhos”, mesas, “talhadores”, etc., etc. que tiveram muita saída.
Começou a colaborar no jornal “Cinco Quinas”, em 2006, com a sua crónica mensal “Baú da Memória”, que durou meia dúzia de anos. Nestas crónicas, sobre o século XX do Soito (e também de Quadrazais e algumas outras terras do concelho), o Ti Eugénio contava episódios de antigamente que tinha guardado na memória, sem nunca ter tirado apontamentos. Cessou a sua colaboração com o “Cinco Quinas” em 2012.
Os textos sobre o Soito foram reunidos em livro, sob o título “Baú da Memória – O Soito de Antigamente”, que já teve duas edições. O livro foi lançado em 2009 no Auditório Municipal do Sabugal. O prefácio do livro é da autoria do Director do jornal “Cinco Quinas”, António Rito Pereira, que refere, a determinada altura, que “ a partir de agora, sobre o século XX do Soito passa haver uma referência indispensável de informação. É o livro do Ti Eugénio.”
A recordação que fica dele é de um homem livre, amigo do seu amigo, com fortes convicções, com grande memória e muito sentido de humor.
João Manuel Aristides Duarte

1 comentário:

Anónimo disse...

Faço um apelo a todos que estando a residir na Guarda, possam ajudar a encontrar qualquer trabalho ( honesto), para uma pessoa que está precisando. Mesmo part-time ( Das 9h até 15h ). Algumas horas por semana em trabalhos domésticos, também poderia ser. A quem puder ajudar, agradecemos e gratificamos. Deixar aqui resposta e contato

Desde já agradecemos