Durante muitos anos, a água que chegava à aldeia não dependia de empresas concessionárias. Vinha directamente da nascente, conduzida por canalização construída pelos próprios habitantes da freguesia e mantida pela Junta de Freguesia.
A população de Malcata, herdou e habituou-se a ir à fonte das bicas, encher os cântaros de barro com água para beber e no tanque pequeno, enchia os caldeiros, para os animais. Quando faltava água nas bicas, tiravam o ar à fonte para a água voltar a jorrar. Isto acontecia no Verão.
Foram os habitantes da aldeia que, a pedido do senhor António Nita, presidente da Junta de Freguesia, nos anos 30 (1935, 1936 e 1937), se juntaram e abriram a vala, carregaram tubos às costas e durante semanas fizeram a obra, construindo um sistema simples e prático, inteiramente comunitário e que nos legaram ao longo de várias gerações e que ainda hoje funciona.
A aldeia manteve-se independente da rede municipal de abastecimento de água até aparecer a empresa municipal, Serviços de Águas e Saneamento Sabugal. Mesmo assim, quando a barragem do Sabugal foi construída a nossa freguesia, representada pela Junta de Freguesia à época dos acontecimentos, recusou integrar a rede pública que abastece o concelho e optou por proceder à abertura de um furo próprio, com canalização directa desde o local do poço até ao reservatório da freguesia. A obra foi realizada e ao contrário do que alguns contavam, todos os consumidores foram obrigados a instalar contadores para registar
mensalmente o consumo da água gasta em suas casas. Também a vigilância e controlo da água passou responsabilidade da Câmara Municipal do Sabugal.
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| Trabalho voluntário |
A gente da nossa aldeia, ainda que lentamente, aceitou e resignou-se passando também a pagar factura da água, do saneamento e do lixo sólido urbano.
A fonte das bicas resistiu a todas estas alterações na rede de abastecimento público de água para consumo humano. Ainda continua a jorrar a água vinda da nascente e através das tubagens que apenas foram substituídas uma vez , ouve-se dizer aos mais idosos…
Na nossa aldeia, a água continua a jorrar na Fonte das Bicas e a descer pelas barrocas que o povo abriu. Cada gota transporta consigo a memória de uma comunidade que sempre lutou de forma silenciosa mas firme, de gente que resistiu com todas as suas forças que atravessou gerações e ainda hoje nos deixam orgulhosos. Foram eles os construtores e os que souberam manter e cuidar da água que bebiam e regava os campos. Saibamos nós ser capazes de continuar a defender a água que se bebe na aldeia, que é nossa e não do município, é da mina construída pelos nossos antepassados e que nós agora não estamos a saber manter e preservar com a mesma vontade que eles tiveram.
Enquanto houver água na mina, enquanto a população continuar a afirmar que a água da fonte da Torrinha é para ser bebida, porque é nossa, é do povo e não se nega água a ninguém, a nossa autarquia só tem de se empenhar na defesa, manutenção e preservação desta água. Esta é a água e a fonte identitária da aldeia, desde 1937. Um testemunho e um símbolo da autonomia e que ainda
ninguém conseguiu destruir.

